O filósofo Roberto Romano (Foto Antonio Scarpinetti - SEC - Unicamp)

O (não) lugar do idoso na sociedade moderna, por Roberto Romano

Por José Pedro Soares Martins

A pandemia de Covid-19 contabiliza no dia 18 de junho de 2020 mais de 8,3 milhões de infectados e 449 mil óbitos, de acordo com o levantamento da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos. Em todo mundo, a maior parte das vítimas fatais é de idosos. Portanto, a grave crise sanitária global deixou ainda mais evidente, e com grande grau de crueldade, a realidade em que vive grande parte das pessoas com mais de 60 anos.

     “Os idosos ajudaram a construir a sociedade moderna, mas nessa sociedade moderna eles não têm mais lugar”, resume em entrevista exclusiva ao Portal Longevinews o filósofo Roberto Romano da Silva. Ele detalha esse (não) lugar da pessoa idosa na sociedade contemporânea, particularmente no contexto brasileiro, no momento em que o país consolida a segunda posição no triste ranking de infectados e mortos pelo novo coronavírus.

       Professor titular aposentado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, ele é autor de vários livros, como “Brasil, Igreja contra Estado” (Editora Kayrós, 1979), “Conservadorismo romântico” (Editora da Unesp), “Silêncio e Ruído, a sátira e Denis Diderot” (Editora da Unicamp), “Razão de Estado e outros estados da razão” (Editora Perspectiva).

Consumidores ou fonte de despesa

Para ilustrar o (não) lugar do idoso no mundo contemporâneo, Roberto Romano cita um filme de 1953, “Era uma vez em Tóquio”, do premiado cineasta japonês Yasujiro Ozu. É a história de um casal de idosos, Tomi e Shukichi (interpretados por Chieko Higashiyama e Chishu Ryu), moradores em uma pequena cidade, que visita os filhos na capital japonesa, para onde vão pela primeira vez. E os filhos, muito preocupados com suas próprias vidas, os recebem com descaso. Para muitos críticos, é a obra-prima de Ozu, pelo retrato profundo de um perfil etário no país que alcançou a maior longevidade no planeta: a expectativa de vida no Japão é de 84 anos. É o país com maior proporção de centenários na população: são mais de 70 mil cidadãos japoneses com mais de 100 anos, sendo quase 90% mulheres.

Cena de “Era uma vez em Tóquio” (Foto Divulgação)

      Quando o filme de Ozu foi lançado, a expectativa de vida japonesa era bem menor, mas a obra já evidencia, na opinião de Roberto Romano, um quadro que viria a ser concretizado no mundo atual. “Com os avanços científicos e tecnológicos, as conquistas da Medicina, muitas pessoas já chegam ou superam os 100 anos. Entretanto, o papel reservado aos idosos é geralmente o de consumidores ou de fonte de despesa, essa é a visão de muitos órgãos internacionais e economistas”, destaca o filósofo.

     Romano lembra a respeito da afirmação da própria ex-diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, para quem “os idosos vivem demasiado e isso é um risco para a economia global”. “Infelizmente essa é a uma opinião muito frequente no meio econômico, a de que os idosos dão muita despesa. É a visão da reforma do sistema previdenciário em vários países, e mais recentemente no Brasil”, completa ele.

      Para o professor emérito da Unicamp, a visão ocidental da velhice contrasta, claro, com o papel reservado aos idosos em sociedades tradicionais ou primitivas. “Nessas comunidades, o idoso é a garantia da continuidade do grupo, com seus saberes e cultura. É quase uma gerontocracia”, completa o pensador.

     Na sua avaliação, o (não) lugar do idoso “é uma questão que a sociedade moderna não resolveu e não resolverá tão cedo, embora seja cada vez mais urgente de resolução”, como tem demonstrado a pandemia de Covid-19. Um novo olhar para o envelhecimento é, assim, fundamental no mundo pós-pandemia, defende o filósofo.

Exército de reserva

Roberto Romano entende que, nos termos atuais, os idosos estão inseridos no conceito de “exército de reserva”, citado por estudiosos e historiadores como Christopher Hill (1912-2003). Esse “exército de reserva” seria composto pelos “excedentes populacionais”, as pessoas que vivem à margem do sistema produtivo.

     “É triste constatar que o sistema capitalista funciona muitas vezes dessa maneira. Ele se utiliza das guerras ou de momentos como esse, de pandemia, para a eliminação desse exército de reserva. É cruel, mas é real”, continua o filósofo.

     Ele assinala que no contexto da pandemia essa visão de fato tem sido reiterada. “É uma situação muito desumana, muitos críticos, economistas e empresários não estão muito preocupados com a quantidade de vidas humanas despendidas, eles querem que o sistema de compra e venda continue funcionando, pouco importa o número de infectados e mortos que isso pode acarretar”, lamenta.

Contra a ciência

No Brasil e também em outros países, observa Roberto Romano, a pandemia de Covid-19 está deixando claro, igualmente, o avanço das posições negacionistas da ciência, o que já era motivo de grande preocupação.

      “A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) já mostrou em vários estudos como o Brasil construiu uma rede pública de produção científica de alto nível, mas o que estamos vendo é um ataque à ciência e às universidades sem precedentes no país, e vindo de onde não deveria, como do ministro da Educação”, protesta o filósofo.

     Romano salienta que as Ciências Humanas, em particular, vêm sofrendo com esse “ataque frontal” ao pensamento. “Tudo o que é Ciências Humanas passou a ser visto como algo de esquerda, comunista. É uma visão que a ditadura de 1964 cultivou e está voltando, com grandes prejuízos para o país. Como é possível diagnosticar e analisar os impactos da pandemia nos diferentes grupos populacionais sem uma avaliação das ciências humanas, como base para decisões?”, ele indaga.

     Roberto Romano recorda que “um dos primeiros atos do atual governo foi demitir o diretor do INPE (Instituto  Nacional de Pesquisas Espaciais), Ricardo Galvão, um dos mais importantes cientistas brasileiros”.

     “Esse governo representa sim uma massa grande de pessoas que não só desconfiam, mas têm ódio da ciência, tudo fazem para acabar com a ciência”, conclui o professor aposentado da Unicamp, para quem a pandemia de Covid-19, se reiterou a “descoberta” da grave desigualdade social no Brasil e o (não) lugar dos idosos, também tem mostrado outros componentes, que precisam ser urgentemente alterados no momento pós-crise sanitária.  

  1. Excelente avaliação! Parabéns Prof Dr Roberto Romano pela avaliação histórica desse processo que a pandemia escancara, expõe literalmente as vísceras desse governo fascista e retrógrado onde a morte de pessoas idosas é tratada com leviandade e desrespeito inclusive pelo “chefe” da nação. Para onde vamos???

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