Imagem de Steve Buissinne por Pixabay

Ecossistema de startups para idosos intensificou ações na pandemia

Por José Pedro Soares Martins

Campinas, 27 de agosto de 2021

“Por conta da pandemia, eu e meu marido que é canadense viemos para o Canadá, ficamos em casa esse tempo todo e o ISGAME foi um apoio muito bom. Eu nunca tinha feito aulas em Zoom, nem usado Zoom, e aprendi várias coisas, tanto de celular como de computador. Fiz também com o ISGAME aulas de saúde, tipo ginástica, e joguinhos de raciocínio. É maravilhoso, a gente fica em casa e por esse programa conheci gente muito legal. Na parte social, mesmo remota, foi muito bom. Quando voltar ao Brasil terei muitos amigos novos”, completa Liliane Rosemberg, 73 anos, uma das usuárias do ISGAME, uma das startups brasileiras voltadas para o público 60+ e cujo ecossistema intensificou as suas ações na pandemia de Covid-19.

A pandemia de Covid-19 tem sido devastadora para a população idosa no Brasil e no mundo e, neste cenário, o ecossistema de startups 60+ muitas vezes tem atuado no vácuo deixado pela limitação das políticas públicas direcionadas para essa faixa etária. As startups agem em diversas frentes no contexto da crise sanitária, como na contratação de cuidadores para idosos e na melhoria da saúde mental. Uma área de especial contribuição das startups durante a pandemia é a capacitação para a inclusão digital, habilidade que se tornou essencial em tempos em que o distanciamento social virou condição de vida ou morte.

Alguns números ratificam a importância do trabalho das startups 60+ no atual momento global. Dos 566.915 óbitos por Covid-19 no país até o dia 26 de agosto de 2021, mais de 65% foram de pessoas com 60 anos ou mais de acordo com os dados do Portal da Transparência dos Cartórios de Registro Civil. Uma geração inteira de filhos e netos que perdeu pais e avós em pouco mais de um ano.

Outra das consequências é a interrupção do aumento da expectativa de vida. Demógrafos e outros especialistas estimam em pelo menos dois anos a diminuição da expectativa de vida média entre os brasileiros em função dos impactos da proliferação do Sars-CoV-2. Todos esses dados sinalizam que o papel das startups 60+ pode ser ainda mais relevante no pós-pandemia, que coincidirá com o desenvolvimento da Década do Envelhecimento Saudável, instituída pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para o período 2021-2030.

Primeiro mapeamento da Economia Prateada na América Latina e Caribe realizado pelo BID Lab

Startups e o vigor da Economia Prateada     

“É muito importante e interessante o crescimento das startups voltadas para a pessoa idosa, que são relativamente recentes e trouxeram um tom diferente, uma nova linguagem para abordar a questão do envelhecimento e atender as demandas dessa população”, comenta Sandra Regina Gomes, gerontóloga pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e Mestre em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Sandra é fundadora e Diretora da Longevida Consultoria na área do Envelhecimento, com várias contribuições para políticas públicas em defesa dos direitos da população idosa no Brasil. Também já atuou na mentoria de startups e acredita que esses empreendimentos podem ter relevante atuação em “espaços ainda não descobertos, ainda não explorados” pelas políticas públicas direcionadas para a pessoa idosa.

De fato, a evolução das startups 60+ no Brasil reflete o avanço da chamada Economia Prateada, como é qualificado o mercado composto por múltiplos serviços para as pessoas idosas e que cresce na medida em que também aumenta proporcionalmente esse contingente no conjunto da população.

No Brasil, um dos países em que a população idosa cresce mais rapidamente na atualidade, 14% da população já têm 60 anos ou mais. Em 1950 os idosos representavam 4,9% da população. Para 2100, a projeção é a de que 40% da população brasileira tenha 60 anos ou mais, o que sinaliza um expressivo leque de oportunidades para a atuação de startups direcionadas para esse contingente.

O vigor do mercado para a população 60+ foi apontado no estudo “A Economia Prateada na América Latina e Caribe – O envelhecimento como oportunidade para a inovação, o empreendimento e a inclusão”, publicado pelo BID Lab, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Coordenado por Masato Okumura, o estudo foi lançado em agosto de 2020, portanto em plena pandemia de Covid-19, que tem sido muito impactante para a população idosa.

Segundo o estudo, 30% do crescimento no consumo na América Latina e Caribe entre 2015 e 2030 serão derivados da população idosa. O avanço da importância do mercado para a população idosa no continente, segundo o estudo do BID Lab, é resultante do fato de que esse grupo etário “consome bens e serviços que são, ao menos em parte, diferentes daquelas do resto da população, e a satisfação de suas necessidades oferece importantes oportunidades de investimento e produção”.

Pois essas oportunidades já estão sendo exploradas na prática, como mostra outro estudo ainda mais recente do mesmo BID Lab, “Economia Prateada: Mapeamento de Atores e Tendências na América Latina”, lançado em abril de 2021. O documento coordenado por Catalina Jiménez registra a ação de 245 atores, entre organizações sociais e privadas, que fornecem produtos e serviços dirigidos para a população idosa no continente.

Os próprios autores do documento esclarecem que o universo apresentado é limitado e que novas investigações ainda serão realizadas. No universo mapeado, 40% dos atores atuam nos setores da saúde e dos cuidados da pessoa idosa. O estudo indica que o setor da atenção à dependência é aquele que já vem sendo desenvolvido há mais tempo, enquanto outros segmentos ainda têm atuação incipiente, como os de acesso ao mundo digital, o de automatização de residências e o de co-residência, entre outros.

“Em todos os setores, contudo, existem iniciativas e empreendimentos inovadores que representam grandes possibilidades de crescimento”, assinalam os autores do estudo, que contempla, com maiores detalhes, 11 casos de desenvolvimento da Economia Prateada na América Latina e Caribe. Entre os 11 está o caso da MaturiJobs, plataforma criada pela brasileira Maturi e que reúne oportunidades de trabalho, desenvolvimento pessoal, formação profissional, empreendimento e networking para pessoas idosas.

Startups em saúde e cuidados, avançando no Brasil

O dinamismo da atuação de startups em saúde e cuidados no Brasil confirma o diagnóstico feito pelo BID Lab no estudo “Economia Prateada: Mapeamento de Atores e Tendências na América Latina”. É o caso da AcVida Cuidadores, uma startup nascida em Brasília (DF) mas que já conta com representações em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, com projeção para chegar em breve a outras capitais estaduais.

A startup tem sua origem em Brasília, da percepção de mercado de seu fundador, o empresário Adriano Machado, a partir de uma necessidade familiar. Aliando essa demanda a uma visão fundamentada por pesquisas de mercado sobre envelhecimento populacional, realizadas com profissionais de saúde do Brasil e do exterior, o empresário vislumbrou a oportunidade de criação de um negócio social erguido sobre as bases: personalização do atendimento ao cliente e a formação (capacitação continuada) dos profissionais cuidadores.

O curso de formação de cuidadores pode ser cumprido de forma remota, pelo celular, e também é oferecida a possibilidade de estágio presencial e certificação para atuação profissional. Os cuidadores ganham exposição ao mercado por meio de uma plataforma e a contratação ocorre diretamente pelo cliente.

No contexto da pandemia de Covid-19, a AcVida se consolidou como uma das principais plataformas de cuidadores de idosos do país, mas o criador Adriano Machado assinala que foi necessária a adaptação ao momento crítico. Ele relata que de março de 2020, quando começou a pandemia, até aproximadamente agosto, o momento foi de adaptação e ajustes à nova realidade. “Ainda não estavam claros os protocolos a seguir, além da limpeza e do distanciamento e o uso de luvas”, conta Machado. Ele diz que nesse período de muitas incertezas a maioria dos clientes manteve os serviços de cuidadores.

Entre agosto e outubro de 2020, “quando ficou claro que a pandemia não iria passar logo”, teve início uma fase de perda de clientes, que “preferiram se isolar um pouco mais”. Entre outubro de 2020 a fevereiro de 2021, quando os números casos e óbitos declinaram, esboçou-se uma retomada de contratações. Com a escalada da segunda onda e aceleração e casos, novamente os clientes “ficaram mais reticentes”, diz Alexandre Machado. O diretor da AcVida acrescenta que, com o avanço da vacinação e nova queda nas estatísticas, a situação “voltou praticamente ao normal”, com a retomada da procura pelos serviços de cuidadores.

Nessa trajetória, informa Machado, a startup procurou reforçar a comunicação com clientes e cuidadores, com uso intenso de blog e redes sociais. “Nós nos aproximamos muito do público em função dessa estratégia. As pessoas nos procuraram cada vez mais com perguntas, sabendo o que deviam fazer”, relata.

Para o futuro próximo, Machado entende que a crise da Covid-19 vai se transformar de uma situação pandêmica para endêmica e, com isso, a necessidade de cuidados com os idosos permanecerá latente. Ele assinala que efetivamente a AcVida projeta a sua expansão para outros estados, ampliando-se portanto a rede de contatos com cuidadores e clientes.

Live promovida por ISGAME durante a pandemia (Foto Divulgação)

Startups foram fundamentais na inclusão digital

Em função do isolamento e confinamento forçados, a inclusão digital tornou-se uma necessidade vital durante a pandemia, o que levou a uma maior procura da população idosa por serviços que facilitassem o seu acesso a um mundo ainda desconhecido para boa parte desse contingente antes da crise sanitária.

Saber lidar com a Internet, via smartphone ou computador, para manter contato com a família obrigatoriamente distante, ficar informado sobre a pandemia, fazer compras por delivery ou ter acesso aos recursos e serviços de telemedicina que foram acelerados com o caos sanitário, passou a ser uma demanda básica por muitos idosos.

Dados do Google Trends revelaram que buscas por perguntas sobre “Como pagar contas pela Internet”, “Como fazer uma chamada de vídeo” ou “Como comprar através de um site” dispararam nos primeiros meses da pandemia.

Várias pesquisas têm apontado o crescimento do uso de tecnologias digitais pela população idosa no Brasil em função da pandemia. Uma elas, implementada pela fintech Agibank em parceria com a empresa de pesquisas Núcleo 60+, que estuda o hábito das pessoas maduras, revelou que 60% das pessoas com mais de 50 anos incrementaram o uso de aparelhos celulares desde o início do surto pandêmico.

O estudo “50+: novos tempos, novos hábitos” foi executado entre setembro e outubro de 2020 e ouviu 1.464 pessoas de todo o Brasil. Do total, 68% foi composto por pessoas com 50 anos ou mais e 32% era de pessoas de 30 a 49 anos, que representaram a mostra controle. 

Já o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) realizou pesquisa revelando que 89% dos brasileiros com mais de 60 anos utilizaram chamada de voz ou vídeo durante a pandemia e outros 84% usaram as redes sociais. A mesma pesquisa mostrou que 77% dos entrevistados efetuaram consultas, pagamentos ou outras transações financeiras pela internet. São números muito superiores aos 40% registrados em 2019 pelo mesmo Cetic.br.

Em sintonia com essa demanda crescente, surgiram vários aplicativos de grandes marcas comerciais, voltadas especificamente para a população de 60 anos ou mais. Caso do APP James, criado pelo Pão de Açúcar para viabilizar compras online sem cobrança de taxa para essa faixa etária.

Recentemente, no início de agosto de 2021, a PUC-SP lançou o aplicativo SPinfo60+. Através dele, é possível conhecer todos os serviços públicos que atendem a pessoa idosa na cidade de São Paulo e como acessá-los. O aplicativo também informa sobre a legislação relacionada aos direitos da pessoa idosa e o endereço dos Centros Dia para Idosos e das Instituições e Longa Permanência para Idosos (ILPIs), entre outros serviços.

De modo a atender a uma imensa procura por parte da população 60+, startups que trabalham com a inclusão tecnológica desse grupo etário fortaleceram a sua atuação. É o exemplo de Senior Geek, criada em Natal (RN) e que oferece comunidade, eventos, cursos e formações para inclusão digital do público 60+, “desmistificando e os aproximando da tecnologia, impactando diretamente sua independência, autonomia e autoestima”.

São oferecidos, entre outros serviços, cursos e workshops sobre e-commerce, acesso a plataformas como a Zoom (avançado e básico), organização de fotos e vídeos em nuvem e técnicas associadas ao whatsapp. Durante a pandemia, Senior Geek tem promovido, em parceria com Unibes Cultural, encontros virtuais, sobre temas como Negócios de Impacto e Tecnologia, Startup 60+, Direito Digital e Proteção de Dados, O que é Inteligência Artificial e 5G & Internet das Coisas. Um amplo espectro, aproximando o público 60+ do universo tecnológico contemporâneo, com muitos tutoriais para a imersão da população idosa.

“A pandemia bateu pesado na gente”, conta Ricardo Pessoa, CEO de Senior Geek, que explica como foi a adaptação ao novo momento. Ele informa que o projeto foi retomado em janeiro de 2020, depois do falecimento do fundador, Dudu Balochini.

Pessoa observa que, antes da pandemia, havia um plano de extensão todo baseado em atividades presenciais, com polos de ensino à distância, cursos presenciais. “Quando estávamos fazendo o segundo curso, em março de 2020, tudo fechou e tivemos que nos reinventar”, diz ele.

“No nosso caso foi até uma oportunidade porque com a inclusão digital forçada pela pandemia não era preciso mais explicar a importância do trabalho de Senior Geek de inclusão digital, de prover meios das pessoas continuarem se socializando, trabalhando, vivendo, no contexto da pandemia”, comenta.

Na conjuntura da pandemia, segundo Ricardo Pessoa, a proposta da startup ficou então “muito mais relevante e reconhecida”. Ele reitera: “Sem fundamentos básicos do mundo digital você não consegue fazer praticamente nada hoje em dia. Já era uma verdade anteriormente, mas a pandemia evidenciou isso”.

O CEO de Senior Geek destaca, contudo, que a inclusão digital da população senior implica em vários desafios. “Existe uma série de características específicas dessa população, mas acho que o principal mesmo é o medo. As pessoas precisam perder o medo da tecnologia e entender que se uma solução é usada por milhões de pessoas no mundo ela é extremamente fácil”, analisa Pessoa, informando que a startup conta com clientes por todo Brasil, na Europa e na América do Norte.

Fabio Ota: ISGAME ampliou campo de atuação na pandemia (Foto Divulgação)

Sediada em São Paulo, a ISGAME também teve que enfrentar desafios para se ajustar à pandemia, mas acabou se adaptando e até ampliando o seu leque de ação, como informa o CEO, Fabio Ota. A International School of Game (ISGAME) foi criada com aulas de desenvolvimento de videogames, em 2014 para crianças e já em 2015 para idosos.

Em 2018 começou o desenvolvimento do aplicativo Cérebro Ativo, para idosos, como parte do Programa Inovativo para Pequenas Empresas (PIPE) da Fapesp. Em 2019 a ISGAME começou a participar de pesquisa em estimulação cognitiva com videogames (Cérebro Ativo) em idosos, em parceria com a Unifesp e apoio do CNPq. Com o isolamento social, em 2020 passaram a ser executadas atividades online em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo.

Os pilares da ISGAME são o impacto social, a integração intergeracional e o uso de jogos e tecnologia. No dispositivo Cérebro Ativo, desenvolvido pela ISGAME, os usuários são incentivados a criar os seus próprios jogos de videogame, com meio de estimular aspectos cognitivos, físicos e sociais, de forma leve e divertida.

“No início da pandemia foi um desafio planejar como manter o curso, afinal, era necessário começar a explorar métodos bem diferentes do usual”, salienta Fabio Ota. “Mas a ISGAME conseguiu, iniciou aulas online e ao vivo para seus alunos preservando a interação e ainda ampliou seu alcance para mais pessoas por meio de uma parceria com a Prefeitura de São Paulo e a Secretaria de Direitos Humanos, parceria essa que, também, por causa do método online adotado para as aulas, possibilitou a participação de pessoas de outras cidades e estados”, explica.

A partir desse novo formato de aula, Ota diz que o curso passou a ter um foco mais abrangente, além da inclusão tecnológica. “Há aulas com profissionais que falam sobre bem-estar, saúde e exercícios físicos e de raciocínio para manter o cérebro e corpo ativo. A ISGAME também busca continuar proporcionando para os alunos a socialização durante este momento tão sensível que é o distanciamento social”, completa o CEO da ISGAME.

Alunos de aulas promovidas por ISGAME comprovam o impacto das ações. “Com o ISGAME eu aprendi a viver na pandemia. Ele me deu conforto em uma hora muito triste e me deu ensinamentos, que serão para a vida toda e poderei passá-los para os netos. As aulas são formidáveis, abrem a cabeça da gente e não deixam a gente envelhecer”, diz Sandra Amaral Secco, de 76 anos. “Neste tempo de pandemia, principalmente para quem mora sozinha como eu, tenho muito a agradecer ao ISGAME pela oportunidade de participar, acompanhar os jogos e todos os exercícios. Para mim está sendo muito gratificante”, afirma Tereza Brocardo, de 79 anos.

“Participar dos Cursos da ISGAME, ser apresentada aos jogos do Cérebro Ativo, ser recebida por professores e colegas foi o grande diferencial para encarar a minha nova fase na vida, a aposentadoria. Oportunidade de encarar novos desafios com ajuda, estímulo e amizade”, complementa Regina Gomes de Almeida, 69 anos.

Aula em grupo realizada pela Mais Vivida na semana do Dia das Mães (Foto Divulgação)

Ação intergeracional, pelas startups 60+

Uma das inovações que as startups 60+ representam é o diálogo intergeracional que muitas delas proporciona, ressalta a gerontóloga Sandra Regina Gomes. “Isso é muito bom, temos vários exemplos de startups que aproximam as gerações e ficam atentas a todas as demandas desse público no Brasil”, acrescenta.

Um desses exemplos é o da Mais Vivida, de São Paulo, e que é uma plataforma que promove uma relação intergeracional, conectando jovens em busca de trabalho com propósito e maduros que necessitam de companhia em atividades diversas, estímulo cognitivo e inclusão digital.

“A pandemia tem sido um grande MBA para nós…”, admite Viviane Palladino, CEO da Mais Vivida. “Fomos uma das primeiras empresas a oferecer serviços de leva-e-traz de feiras, supermercados e medicamentos para idosos, logo no início da pandemia, quando farmácias e supermercados ainda estavam pouco adaptados à nova realidade. Disponibilizamos nossos serviços de apoio em tecnologia de forma remota por quatro meses totalmente gratuitos para alcançar todos que precisassem”, ela conta.

Viviane Palladino acentua o enfoque intergeracional da Mais Vivida (Foto Divulgação)

Viviane acentua que houve muito aprendizado e foi então identificado o modelo ideal para o público. “Atualmente, 70% dos nossos clientes contratam aulas à distância, o que diminui custos para eles e para nós e continua possibilitando o aprendizado e a criação de vínculo entre jovens e as gerações 60+. Hoje, oferecemos também aulas para grupos dentro de empresas, com foco em letramento digital dos mais vividos. Esta foi uma demanda que também surgiu para nós durante a pandemia e nos organizamos para atender”, conta.

A CEO da Mais Vivida assinala que, de fato, o DNA da startup “é a diversidade geracional, com foco em atuação intergeracional, ou seja, todas as nossas aulas são originadas a partir do encontro entre diferentes gerações”. Ela informa que as empresas SESC, TIM e DANONE Nutricia já contrataram a Mais Vivida para dar aulas para seus colaboradores, parceiros e clientes.

“Para entender como funciona: nossos anjos, como chamamos os profissionais de nosso time, têm entre 18 e 30 anos, e estão preparados não só para ensinar, mas para criar vínculo e apoiar os longevos com escuta, atenção e paciência. Eles passam por rigoroso processo de seleção e treinamento antes de dar as aulas. O que é melhor é que, com este encontro entre diferentes gerações, melhoramos a auto-estima, o bem-estar e o senso de pertencimento dos mais vividos – o que vai muito além de ensinar a tecnologia”, relata Viviane.

Ela conclui, evidenciando uma das principais contribuições do enfoque intergeracional para o envelhecimento saudável e para a sociedade em geral: “Sabemos por estudos científicos que a intergeracionalidade também beneficia os mais jovens que mudam sua percepção sobre os mais vivido, construindo uma cultura diferenciada sobre o envelhecimento”. 

Um dos “anjos” da Mais Vivida é Raul Prebianchi. Formado em Relações Internacionais e com pós-graduação em análise de Big Data, ele soube de oportunidade na Mais Vivida através de uma amiga. “Ela contou que tinham uma demanda específica e que ela se lembrou de mim. Achei fantástico e me inscrevi”, lembra ele.

Raul conta como é seu trabalho no apoio à inclusão digital de clientes. “Muitos têm dúvidas sobre para que servem os 737384 botões que as plataformas têm, tais quais coração, aviãozinho, balão, no Instagram. Aí conversamos sobre elas”, relata. “Outra coisa que muitos não entendem são os termos que o pessoal usa, como compartilha no seu perfil, assistir uma live, dar like, aí é onde ficam com medo das coisas, mas aí quando explicamos com calma, tudo se ajeita” descreve o “anjo”.

Ele conta que no começo da pandemia as atividades foram praticamente todas remotas, “mas depois das vacinas comecei a voltar para a atuação presencial”. Ele acredita que a grande contribuição da startup e sobretudo de seu trabalho na inclusão digital de pessoas idosas tem sido em “desmistificar que é algo complexo, difícil… Sempre brinco que, na pior das hipóteses, é só sentar o dedo no botão desligar e ligar tudo de novo!” Raul considera, enfim, que o trabalho tem sido muito relevante, sobretudo no atual momento da pandemia. “Assim eles conseguem ter uma vida digital muito mais ativa e tranquila”, conclui o “anjo” da Mais Vivida.

Moradora em Natal (RN), Maria Ivaneide da Serra, de 79 anos, é uma das usuárias da Mais Vivida. Ela conta que conheceu o serviço depois de receber um telefonema com convite para conhecer o site da startup. “Conheci e gostei. Eu procurei a Mais Vivida porque estava com dificuldade de mexer no meu celular e sempre tinha que arranjar uma pessoa para me ajudar. Estou gostando muito e já sabendo algo que antes não tinha condições, fico com muita saudade quando termina a aula. A Gabriela é realmente um anjo. Todos os serviços que oferecem eu gosto muito”, ela afirma, sobre os serviços que recebe da Mais Vivida e a profissional que a auxilia.

Editais aceleram startups 60+, mas permanecem desafios

A pandemia potencializou muitas startups voltadas para a população idosa e alguns editais de aceleração também contribuíram para a expansão dos empreendimentos. Foi o caso do Neo Acelera, programa de aceleração da Neo Química, que em sua segunda edição, ao longo de 2020, se propôs a apoiar empreendimentos inovadores desenvolvidos por startups, focados nos desafios da maturidade, que já impactem seu público alvo e tenham potencial para ganhar escala.

Foram inscritos 441 negócios no programa, desenvolvido em conjunto com a unidade de inovação corporativa da Yunus Negócios Sociais, com apoio da Pipe.Social e da consultoria Hype60+. Foram escolhidos seis negócios, que passariam por um programa de três meses de aceleração, com treinamentos imersivos e mentorias online, envolvendo especialistas do mercado e a equipe da Yunus Negócios Sociais. Toda a jornada da aceleração foi adaptada para a realidade virtual, explorando metodologias adequadas ao contexto da pandemia.

O mais recente edital na mesma linha, o iNOVA 60+, foi lançado no dia 17 de agosto de 2021 pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Esta é a primeira grande ação do Instituto de Longevidade da UCS, criado neste ano, e é realizada em parceria com a agência UCS iNOVA, que reúne a estrutura da Universidade voltada à pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I).

As inscrições estão abertas até o dia 24 de setembro. Podem ser registrados projetos que beneficiem a pessoa idosa nos eixos de Atenção à Saúde, Mobilidade e Acessibilidade. Após as inscrições haverá um período de pré-aceleração dos novos negócios, com mentorias nos meses de outubro e novembro. Em novembro será promovido um pitch-day (evento de apresentação sintética dos projetos para potenciais investidores) e em seguida ocorre a aceleração dos novos negócios, a partir de 2022.

“A população brasileira está envelhecendo de forma acelerada e precisamos propor alternativas e soluções para que a sociedade esteja preparada para dar conta das necessidades desse público”, diz a coordenadora do Instituto da Longevidade, prof. Dra. Verônica Bohm, especialista em Gerontologia e docente de mestrado e graduação em Psicologia da UCS. “Como instituição comunitária, atenta às demandas da atualidade, sendo destaque nacional em inovação e com mais de 30 anos de pesquisas e atuação no campo do envelhecimento humano, a UCS tem expertise e conhecimento para orientar ações que possam melhorar a qualidade de vida frente às transformações demográficas atuais”, ela comenta, sobre a iniciativa do edital.

Sandra Regina Gomes: startups 60+ contribuem com nova linguagem e podem atuar em sintonia com políticas públicas (Foto Divulgação)

Apesar do avanço das startups 60+ no período da pandemia e da potencialização por fatores como os editais de aceleração, permanecem desafios relevantes, o que pode representar interessantes oportunidades. Por exemplo, mesmo com o crescimento do uso das tecnologias digitais pela população idosa em função da pandemia, prosseguem brechas nessa área.

Levantamento do Cetic.br mostrou que apenas 26% dos usuários de 60 anos ou mais de tecnologias digitais no Brasil tinham feito pesquisas relacionadas a questões educacionais, o que contraria a recomendação da Unesco de aprendizado à vida toda. O mesmo trabalho mostrou que 46% dos entrevistados com 60 anos ou mais preferiram usar o telefone do que contatos pela internet para buscar serviços de saúde durante a pandemia.

Por sua vez, o estudo do BID Lab “A Economia Prateada na América Latina e Caribe – O envelhecimento como oportunidade para a inovação, o empreendimento e a inclusão” indicou algumas oportunidades para empreendimentos inovadores considerando a população 60+ nos próximos anos, em áreas ainda não totalmente cobertas pelos serviços existentes.

Algumas dessas oportunidades são serviços para idosos com dependência funcional, serviços na área financeira como seguros e pensões, oferta de moradias acessíveis e adaptadas, serviços para a melhoria da mobilidade e entrega de compras em casa e novas oportunidades de consumo, como nas áreas e turismo e moda para o público 60+.

A gerontóloga Sandra Regina Gomes sustenta que a Década do Envelhecimento Saudável representará muitas janelas para iniciativas voltadas à pessoa idosa. “Precisamos de cidades amigáveis para a pessoa idosa e de cuidados integrados, com a integração sobretudo entre saúde e assistência social”, defende Sandra, que acredita no enorme potencial das startups para a atuação na defesa de direitos e prestação de serviços para a população idosa, “especialmente atuando em conjunto com as políticas públicas”.

O ecossistema de startups 60+ avançou muito nos últimos anos e a pandemia de Covid-19 evidenciou a sua relevância e o seu potencial. Há muito caminho aberto pela frente.

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