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Um olhar para o idoso no contexto da pandemia pelo novo coronavírus

Este artigo que dá sequência ao painel de ideias promovido pelo Portal LongeviNews. A iniciativa buscar trazer uma visão intersetorial e multidisciplinar da longevidade por meio da reflexão sobre a situação das pessoas idosas e a respeito das mudanças necessárias nas políticas públicas voltadas à Terceira Idade capazes de proporcionar um envelhecimento ativo e saudável.

Por Darlene Mara dos Santos Tavares

A pandemia pelo novo coronavírus evidenciou, no panorama nacional, diversas questões relacionadas ao envelhecimento que já precisavam ser enfrentadas pelo país, de forma a favorecer a qualidade de vida, o autocuidado e a autonomia nesta etapa da vida.

A população idosa não é homogênea. Portanto, tem-se diversos cenários em que o idoso está inserido que precisam ser considerados. Destacam-se alguns que podem favorecer a maior vulnerabilidade do idoso e dificultar a prevenção da COVID-19. O distanciamento social, medida essencial para diminuir a transmissibilidade do vírus, traz desafios para a vida do idoso.  Em especial para aqueles que residem em habitação unipessoal, os que são dependentes e necessitam de auxílio para realizar suas atividades de vida diária e para os que vivem em habitações multigeracionais. Em cada um destes espaços são necessárias medidas para garantir tanto as condições básicas de vida como evitar a propagação do vírus.

Darlene Mara dos Santos Tavares

Idosos que residem em habitação unipessoal precisam de uma rede de apoio social para adquirir alimentos; pagar as contas, apoio para os aspectos relacionados a saúde mental, além de todos os cuidados com a saúde física considerando a alta prevalência de doenças crônicas nesta faixa etária. Aqueles que são dependentes e necessitam de um cuidador formal ou familiar, além de todos os aspectos pontuados anteriormente, ainda têm o desafio de adotar outras medidas no domicílio para mitigar o risco de contaminação. Desta forma, o cuidador deve ter as devidas precauções, sendo ainda necessário verificar se é uma pessoa ou mais que exerce o cuidado, se sai de casa e quais as pessoas que compartilham o domicílio. Entre os idosos que compartilham habitações multigeracionais também se deve estar atento ao número de pessoas que residem na casa, a movimentação dos membros e os cuidados preventivos estabelecidos por todos no domicílio. E, por fim, tem-se o idoso que, independente da sua configuração domiciliar, necessita trabalhar, se expondo cotidianamente a contaminação do novo coronavírus, por precisar de recursos financeiros para fazer frente suas necessidades básicas e, por vezes, da família.

Cabe destacar o agravamento deste quadro considerando que o idoso está mais susceptível a ter a forma grave da COVID-19 e pelos óbitos ocorrem mais entre eles. Todos esses aspectos estão permeados por diversos outros fatores que podem favorecer com que o idoso tenha a violação dos seus direitos, expresso na violência familiar, na omissão de cuidados e na ausência da continuidade da atenção à sua saúde.

Assim, a pandemia da COVID-19 traz de maneira enfática a necessidade de as áreas somarem esforços e voltar o olhar as especificidades da situação em que o idoso está inserido. Mais do que nunca se evidencia que a atenção ao idoso deve ser integral e que as consequências da pandemia atingem diversos faces. Destaca-se na saúde física a diminuição das atividades e locomoção, que por sua vez, pode contribuir na fragilização do idoso com seus eventos adversos; o receio de ir ao serviço de saúde e ter interrupção no acompanhamento da sua doença crônica e a ansiedade e depressão pelas mudanças no cotidiano.  

Ainda que o Brasil tenha um arcabouço jurídico legal para a proteção do idoso, as ações necessitam ser mais efetivas de forma a resgatar os direitos sociais à saúde e a vida do idoso. Nesta perspectiva, é preciso propiciar a inclusão do idoso, inclusive através do uso de tecnologias digitais que podem ajudar na condução da vida diária. Contudo, há de se considerar o acesso e a habilidade do idoso a estas ferramentas, sendo uma área a ser trabalhada durante a pandemia, se possível, mas efetivamente no pós-pandemia.

Outra preocupação se refere às informações relacionadas a pandemia e suas medidas protetivas, que estão sendo veiculadas. Elas favorecem o entendimento do idoso? São capazes de ajudar na mudança de comportamentos para mitigar a transmissibilidade? Informações fidedignas e positivas contribuem para melhorar a autoestima, a esperança e a ter comportamentos saudáveis e preventivos.

A pandemia também sinalizou a importância de ampliar a rede de apoio social ao idoso que contribui no atendimento das necessidades básicas; na saúde mental, espiritual, cultural e social e, também, na superação dos desafios.

Desta forma, muitos são os aspectos que devem ser construídos e trabalhados pela sociedade para a devida valorização e respeito ao idoso. Ressalta-se que não se deve esquecer que a pandemia mostrou a necessidade de as pessoas serem solidárias e empáticas, pois a grande maioria um dia chegará na última etapa da vida e terá a expectativa de ter dignidade.

Darlene Mara dos Santos Tavares possui graduação em Enfermagem e Habilitação em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), Especialização em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Mestrado em Enfermagem Fundamental (1997) e Doutorado em Enfermagem (2001) pela USP. Foi Diretora do Instituto Ciências da Saúde de 2010 a julho de 2014 e Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação de agosto de 2014 a agosto de 2019 da UFTM, da qual atualmente é vice-reitora e Professora Titular. Editora científica da Revista de Enfermagem e Atenção à Saúde, participa da Rede de Enfermeria Adulto Mayor – Red ESAM. Tem experiência na área de Enfermagem, com ênfase em Enfermagem Gerontológica.

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